sábado, 8 de setembro de 2012

Crítica - O Legado Bourne

Cristiano Almeida

O Legado BourneUm filme que se propõe a continuar a trajetória de uma franquia bem sucedida tem um árduo trabalho pela frente. Primeiro deve manter o nível de seus antecessores para depois inovar e trazer algo a mais para os fãs da franquia em questão. O longa que se aventura nessa premissa é O Legado Bourne (The Bourne Legacy), produção que tenta dar sequência aos excelentes filmes protagonizados por Matt Damon. Tenta, mas não consegue.

A Identidade Bourne, longa baseado no livro de Robert Ludlum, inovou por trazer uma atmosfera diferente aos filmes de espionagem, com sequências mais realistas e alto nível de suspense. Suas duas continuações seguiram pelo mesmo caminho e a trilogia acabou por influenciar produções como 007 na utilização da mesma narrativa. Neste quarto filme, que utiliza apenas o título de um dos livros de Ludlum e cria uma trama original, vários elementos efetivos nos três primeiros filmes são eliminados para dar mais foco à ação.

Com a saída de Matt Damon, a solução foi criar um novo agente, aqui interpretado por Jeremy Renner. Ele é Aaron Cross, soldado que foi treinado pelo mesmo programa de Jason Bourne. O vemos pela primeira vez em ação no Alasca, enquanto flashbacks e cortes para a sede da CIA vão explicando a trama. Cross é parte de um avanço no Programa Treadstone, mas as repercussões na mídia da ligação de Bourne com o programa fazem com que o coronel Eric Byer (Edward Norton) decida encerrar o experimento. Desse modo, ele ordena que os recrutas sejam eliminados um a um para acabar com qualquer vestígio que os liguem à CIA.

O filme demora para engrenar, e começa a ficar um pouco interessante após a tentativa de aniquilar Aaron. Porém, a expectativa não se confirma quando são inseridos outros programas de super agentes na história, o protagonista faz contato com a Dra. Marta Shearing (Rachel Weisz), médica responsável por criar pílulas que aumentam a resistência física e a capacidade cognitiva dos agentes, e a partir desses eventos ambos correm por suas vidas. Ou seja, enquanto nas outras produções tínhamos o suspense, a busca pela verdade e a ação em momentos cruciais, neste temos correria e um agente muito mais físico em contraponto à frieza do anterior.

Jeremy Renner está bem no papel, tem boas cenas e encarna seu agente, mas o personagem não é bem trabalhado por culpa do roteiro de autoria de Tony e Dan Gilroy. Com várias inconsistências e pontas soltas, o script exagera em ampliar o universo da trama, trazendo elementos que não se encaixam na ambientação e propondo soluções pouco aceitáveis. O resultado é um soldado apenas fugindo de seus assassinos, porém sem um motivo verdadeiramente convincente.

Tony Gilroy foi roteirista da trilogia e assumiu a direção após a saída de Paul Greengrass. Chega a ser estranho que suas ideias tão efetivas nos filmes anteriores não sejam empregadas nesta nova produção, e ele opte por citar e mostrar tantas vezes Jason Bourne, indicando a necessidade de ligação entre as produções, quando poderia relacioná-las e ainda assim ser autônomo. Felizmente, a projeção é compensada em outros aspectos como a interpretação dos atores, do já citado Jeremy Renner, e também Edward Norton, que merecia mais espaço na história, e na trilha sonora de James Newton Howard, extremamente eficiente em acompanhar as lutas e os poucos momentos de suspense. Por fim, a ação é bem filmada, mas é prejudicada no clímax com o excesso de cortes na edição, que tornam a sequência semelhante as exageradas produções de ação da França.

Ao final do filme, a sensação é de que O Legado Bourne poderia ter sido bem melhor se o roteiro expandisse o universo, mas de forma coerente, ou seja, inserisse o novo agente, mas não com tantas ideias engenhosas para sua existência. Tomara que o desejo de Tony Gilroy de colocar Jason Bourne e Aaron Cross juntos em um próximo filme se concretize, e o diretor volte a contar a história com as características marcantes dos outros longas, pois, caso contrário, a nova franquia corre o risco de ter elementos de Bourne apenas no nome.

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