A Identidade Bourne, longa baseado no livro de Robert
Ludlum, inovou por trazer uma atmosfera diferente aos filmes de espionagem, com
sequências mais realistas e alto nível de suspense. Suas duas continuações
seguiram pelo mesmo caminho e a trilogia acabou por influenciar produções como 007 na utilização da mesma
narrativa. Neste quarto filme, que utiliza apenas o título de um dos livros de Ludlum e cria uma
trama original, vários elementos efetivos nos três primeiros filmes são
eliminados para dar mais foco à ação.
Com a saída de Matt Damon, a solução foi criar um novo
agente, aqui interpretado por Jeremy Renner. Ele é Aaron Cross, soldado que foi
treinado pelo mesmo programa de Jason Bourne. O vemos pela primeira vez em ação
no Alasca, enquanto flashbacks e cortes para a sede da CIA vão explicando a
trama. Cross é parte de um avanço no Programa Treadstone, mas as repercussões
na mídia da ligação de Bourne com o programa fazem com que o coronel Eric Byer
(Edward Norton) decida encerrar o experimento. Desse modo, ele ordena que os recrutas sejam
eliminados um a um para acabar com qualquer vestígio que os liguem à CIA.
O filme demora para engrenar, e começa a ficar um pouco
interessante após a tentativa de aniquilar Aaron. Porém, a expectativa não se confirma quando
são inseridos outros programas de super agentes na história, o protagonista faz
contato com a Dra. Marta Shearing (Rachel Weisz), médica responsável por criar
pílulas que aumentam a resistência física e a capacidade cognitiva dos agentes,
e a partir desses eventos ambos correm por suas vidas. Ou seja, enquanto nas
outras produções tínhamos o suspense, a busca pela verdade e a ação em momentos
cruciais, neste temos correria e um agente muito mais físico em contraponto à
frieza do anterior.
Jeremy Renner está bem no papel, tem boas cenas e encarna seu agente, mas o personagem não é bem trabalhado por culpa do roteiro de
autoria de Tony e Dan Gilroy. Com várias inconsistências e pontas soltas, o
script exagera em ampliar o universo da trama, trazendo elementos que não se
encaixam na ambientação e propondo soluções pouco aceitáveis. O resultado é um
soldado apenas fugindo de seus assassinos, porém sem um motivo verdadeiramente
convincente.
Tony Gilroy foi roteirista da trilogia e assumiu a direção
após a saída de Paul Greengrass. Chega a ser estranho que suas ideias tão
efetivas nos filmes anteriores não sejam empregadas nesta nova produção, e ele
opte por citar e mostrar tantas vezes Jason Bourne, indicando a necessidade de
ligação entre as produções, quando poderia relacioná-las e ainda assim ser
autônomo. Felizmente, a projeção é compensada em outros aspectos como a
interpretação dos atores, do já citado Jeremy Renner, e também Edward Norton,
que merecia mais espaço na história, e na trilha sonora de James Newton Howard, extremamente
eficiente em acompanhar as lutas e os poucos momentos de suspense. Por fim, a
ação é bem filmada, mas é prejudicada no clímax com o excesso de cortes na
edição, que tornam a sequência semelhante as exageradas produções de ação da
França.
Ao final do filme, a sensação é de que O Legado Bourne
poderia ter sido bem melhor se o roteiro expandisse o universo, mas de forma coerente, ou seja, inserisse o novo agente, mas não com tantas ideias engenhosas
para sua existência. Tomara que o desejo de Tony Gilroy de colocar Jason Bourne
e Aaron Cross juntos em um próximo filme se concretize, e o diretor volte a
contar a história com as características marcantes dos outros longas, pois,
caso contrário, a nova franquia corre o risco de ter elementos de Bourne apenas
no nome.
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